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Nascido na cidade de Prudente de Morais, a 17 de janeiro de 1910, passou a infância e parte da adolescência em Capim Branco, onde seu pai, Francisco Gonçalves Mascarenhas, era chefe político do lugar, e sua mãe, Maria José de Oliveira Gonçalves, hospedava pessoas em sua casa. Costumava arranchar ali um velho tropeiro, Samuel de Andrade, que uma vez pintou para a mãe de Antônio Gonçalves a Escola Agrícola Dom Bosco, localizada em Cachoeiro do Campo, como se fosse um paraíso terrestre. Vale dizer que as Escolas Dom Bosco de Cachoeiro do Campo foram fundadas em 1895, sob a direção dos padres salesianos, salientando a figura de Dom Bosco, grande educador que, além de pregar a alegria e o otimismo aos seus congregados, prometia-lhes pão, trabalho e paraíso.
Com a morte prematura do marido, deixando os negócios atrapalhados, a genitora de Antônio pediu proteção ao Dr. Francisco Antônio de Sales (5º presidente constitucional de Minas Gerais, em 19l7, e fazendeiro naquele antigo arraial) para educar os filhos. Lembrando-se da conversa do tropeiro, sugeriu ao generoso homem público a Escola Dom Bosco. Assim, no 2º semestre de 1919, ele e seu irmão José, apesar das sérias dificuldades de adaptação, pois, a escola primária de Capim Branco era pedagogicamente frágil, progrediram nos estudos graças à Congregação Salesiana. É digno mencionar que sua mãe, ainda moça, trabalhou heroicamente na fazenda de Campo Belo, distrito de Prudente de Morais, para o custeio de roupas, farmácia, livros e passagens para Gonçalves e seus irmãos. Educados, constituíram uma geração de professores, com milhares de ex-alunos espalhados pelos quadrantes do Brasil. Seu irmão, padre Francisco, construiu um colégio salesiano em São João del Rei, MG, e sua irmã Nair, freira salesiana, colaborou na fundação de um ginásio, em Brasília, DF. No Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, José lecionou Português, por vários anos, e ele Geografia, Ciências Naturais e Matemática.
Antônio Gonçalves fez exame vestibular na Escola de Farmácia da Universidade de Minas Gerais (1932), chegando a matricular-se, mas não freqüentou as aulas, a fim de tentar serviços de agrimensura em Sete Lagoas, onde lecionou Matemática no Colégio D. Silvério.
Pisou o solo viçosense (1933) também para lecionar Matemática no Colégio de Viçosa, mas o seu desejo era ser professor na Escola Agrícola. Entretanto, a colocação que almejava lhe foi negada, motivando o encurtamento de sua permanência na cidade. No final do ano, mal vestido e com pouco dinheiro, seguiu para Niterói, RJ, a fim de fazer o vestibular na Faculdade de Direito, hospedando-se no Colégio Salesiano de Santa Rosa. Neste estabelecimento, deu um curso de férias para cobrir as despesas de alimentação e taxa escolar, sendo seu professor de inglês, em 1934. Exerceu o magistério no secular Colégio Pedro II, como preparador de História Natural, e ensinou Francês no Instituto Superior de Preparatórios (MABE, Moderna Associação Brasileira de Educação).
Em 1936, foi professor de Português e Latim no Colégio Propedêutico Carangolense, em Carangola, mas o estabelecimento teve vida efêmera. Depois disso, foi aceito no Colégio Pedro I, em Brás de Pino, no Rio, onde trabalhou até 1939 como professor de línguas.
Voltando a Viçosa (1939), onde morou até l965, casou-se com Rita de Oliveira Duarte Gonçalves, com quem teve cinco filhos e cinco netos, retomou suas atividades no Colégio de Viçosa, lecionando Português e Latim, mas ainda visava ao ingresso na Escola Superior de Agricultura. Esta oferecia um curso complementar de dois anos, era uma espécie de colégio universitário, do qual os alunos da última série fizeram um abaixo-assinado que resultou no afastamento do professor de Física e na vaga da cadeira. Gonçalves, aceitando a lembrança e os bons ofícios de seu amigo, professor Edgard de Vasconcelos Barros, foi apresentado ao Dr. John B. Griffing, diretor daquele estabelecimento, e viu, então, realizar-se um de seus maiores sonhos: o de dar aulas de Física na Escola Superior de Agricultura, o que aconteceu pela primeira vez, a 2 de maio de 1939. Depois passou a trabalhar no Departamento de Engenharia Rural, ensinando Psicologia e Lógica, Geofísica e Cosmografia. Lecionou Matemática para os cursos elementar e médio. Quando o professor Edgar foi estudar em outro país, Gonçalves foi indicado para substitui-lo na cadeira de Sociologia Rural. Posteriormente à criação da Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, UREMG, foi transferido para a Escola de Ciências Domésticas, ministrando aulas de Matemática, Literatura e Contabilidade Doméstica. Na mesma época, na cidade histórica mineira, como bolsista, fez curso de extensão de Cálculo Infinitesimal e Geografia Analítica na Escola Nacional de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. Voltando a Viçosa lecionou matemática para o curso de Agronomia.
Apesar das duas aposentadorias, depois de uma temporada em Belo Horizonte, de novo em Viçosa (1979), começou a trabalhar como revisor de Português na Imprensa Universitária. Gonçalves armazenava enorme gama de conhecimentos em seu cérebro, tendo sido professor, topógrafo, advogado e jornalista provinciano. Exerceu a vereação e, bem mais tarde, recebeu o título de Cidadão Viçosense, outorgado pela Egrégia Câmara Municipal.
No segundo semestre de 1981, expôs ao então reitor da Universidade Federal de Viçosa os motivos que o levavam a deixar a Imprensa Universitária, e disse-lhe: Se não houver uma solução para o meu caso, eu pediria o bilhete azul. O professor Paulo Mário del Giudice, de saudosa memória, garantiu-lhe que tal coisa não iria acontecer. De acordo com o reitor que lhe sucedeu, Joaquim Aleixo de Sousa, ambos seus ex-alunos e amigos, foi resolvido satisfatoriamente o seu problema.
Obras: A Demagogia da Honestidade, Diretrizes de uma Reforma Agrária, Filosofia do Riso, Noções de Sociologia Rural, O Capital e a Teoria Marxista, Ortografia e Emprego da Crase, O Soneto de Félix Arvers, Pesquisa Sobre as Funções Beta e Gama no Campo Real, Sombras do Passado, Algumas Questões de Direito Rural, Curso de Trigonometria, Elementos de Geometria, Exercício de Cálculo Infinitesimal, Lições de Cálculo Diferencial, Lições de Geometria Analítica no Plano, Noções de Cálculo Integral e das Probabilidades, Português sem Lágrimas, Aspectos Econômicos-Sociais do Problema Rural, As Semelhanças da História, Noções de Filosofia da História, Lições de Língua Portuguesa e de Literatura Brasileira, Maquiavel e o Maquiavelismo, Normas de Redação, O Capital e o Marxismo, Pequeno Dicionário de Homônimos e Parônimos, Pequena e Singular História de Minas Gerais, Educação e Democracia e Memórias de um Estudante e Professor.
Professor Antônio Gonçalves de Oliveira, homem de cultura invulgar, eclética. Vida que não devia acabar. Gonçalves atingiu o último estágio cultural, que é o da cultura pela cultura: desinteressada, em um plano transcendental, em que ela é a própria razão de vida.
Disse um e corroborou outro do privilégio de sua geração por terem sido alunos do Professor Gonçalves e desfrutado do banquete cultural e do mais alto nível de inteligência, cultura e trabalho que lhes eram oferecidos nas salas de aula. Com a mesma dignidade e responsabilidade com que administrava um curso de graduação, ele dividia sua rica cultura com crianças numa escola de nível ginasial. Foi o homem culto a serviço da cultura sem fronteira e sem distinção. A cadeira nº 2 foi ricamente dignificada pelo seu fundador. O escolhido para patrociná-la, Gonçalves Dias, retrata o homem e o acadêmico que foi Antônio Gonçalves de Oliveira, confrade que honrou e dignificou a Academia de Letras de Viçosa que, em hora inspirada o abrigou.
Faleceu a 18 de outubro de 1987, em Belo Horizonte, onde foi sepultado. |