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Discurso de Posse
Ilma. Sra. Presidente da Academia de Letras de Viçosa, Maria Aparecida da Silva Simões; em nome de quem cumprimento os demais ilustres componentes da mesa; Meus prezados colegas membros da ALV; Minha esposa Tê, meus filhos: Túlio, Maísa e Davi e futuros genro e noras; Demais familiares amigos; Meus caros amigos; Senhores e senhoras.
Tomar posse como membro da ALV é para mim uma grande honra e traz-me duas grandes alegrias: a primeira pela oportunidade de contribuir para a continuidade de importantes obras da Academia como o tradicional encontro dos escritores e a realização de concursos literários; a segunda, pelo compromisso de encontrar-me com mais freqüência com meus amigos literatos.
Escolhi como patrono Érico Veríssimo, sobre quem passo a dizer algumas palavras.
Érico Veríssimo nasceu em Cruz Alta, RS, em 17-12-1905. Em 1928, publicou seu primeiro conto “Ladrão de Gado” na Revista do Globo.Em 1932, seu primeiro livro “Fantoches”, um livro de contos, foi publicado também pela Livraria do Globo.Em 1934, conquistava, com o romance “Música ao Longe”, o Prêmio Machado de Assis e, no ano seguinte, “Caminhos Cruzados” era premiado pela Fundação Graça Aranha. Foi com “Olhai os Lírios do Campo”, romance publicado em 1938, entretanto, que seu nome se fez largamente popular.
Seu prestígio internacional cresceu a tal ponto que, em 1953, por indicação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, assumiu a direção do Departamento de Assuntos Culturais da OEA, cargo que exerceu por três anos em Washington.
Para a Globo, traduziu mais de cinqüenta títulos do inglês, francês, espanhol e italiano; escreveu mais de 25 livros, entre romances, livros de contos, de viagens e auto-biográficos, e 11 obras para o público infantil e infanto-juvenil.Sua obra logo espalhou-se pelo mundo em traduções publicadas em mais de 20 países.
Faleceu, subitamente, de infarto, em 28-11-1975, em Porto Alegre, quando se ocupava do segundo volume de suas memórias, “Solo de Clarineta”.
Escolher Érico Veríssimo como patrono foi a forma que encontrei para falar de minha admiração por dois de seus livros: “O Continente”, primeiro livro da trilogia O Tempo e o Vento, publicado em 1949, e “O Senhor Embaixador”, publicado em 1965.
Quaisquer desses livros, se houvesse um concurso literário internacional que avaliasse, com perfeição, todas as qualidades de uma obra, mereceria a premiação máxima. Assim, o público universal teria a grande oportunidade de conhecer a literatura de Érico Veríssimo e extasiar-se com ela, e o Brasil não seria um PSN, isto é, um país sem Nobel; ao contrário, seria reconhecido, entre poucos outros, como possuidor da melhor literatura do século vinte.
“O Continente” descreve os primeiros tempos do Rio Grande, visualizados em paisagens amplas, verdejantes e brilhantes nos dias de verão e enevoadas nas noites de inverno. Narra o encontro dos colonos forasteiros com o indígena familiarizado com os pampas.Enquanto os colonos procuravam domar aquela paisagem trabalhando o gado, lutando suas guerras e viajando nas carretas, os índios gaúchos tentavam aproximar-se daquela gente áspera e entender porquê não se contentavam em viver na terra abundante, mas cercavam-na para extrair dela algo desconhecido. Desse encontro surgem Ana Terra e o Capitão Rodrigo, a força mansa da mulher e as aventuras heróicas do homem dos pampas.
“O Senhor Embaixador” é outro livro e outra estória. É uma obra-prima a desnudar a esquerda e a direita na América Latina nos anos 50 e 60. É impressionante o conhecimento do autor da essência dos líderes, do processo político, das revoltas, dos golpes, do atraso generalizado dos povos e dos grupos de governantes ditadores, revolucionários ou não, que se impuseram às populações por alguma revolução sangrenta ou pelo terror das prisões e da tortura.
Érico Veríssimo consegue ser imparcial descrevendo a farsa da esquerda e suas boas intenções; os crimes, a corrupção e o sentimento de honra de alguns membros dos governos de direita. Érico Veríssimo não se deteve nas aparências heróicas e aclamadas da esquerda, mas aprofundou-se nas ideologias exóticas, mal pensadas e retrógradas que enfeitavam os discursos rebeldes desse período. Não se intimidou também em denunciar a repressão, a censura, a desinformação, os boatos e as calúnias levantadas contra todos que insurgiram contra os governos instalados.
“O Senhor Embaixador” ilustra, como nenhuma outra obra literária do século XX, o grande dilema vivido pela sociedade dessa época: lutar para remover a injustiça e a opressão, ao lado de rebeldes seguidores de falsas ou frágeis concepções políticas e organizacionais, ou posicionar-se ao lado do poder constituído, acreditando, por desinformado, na propaganda política mentirosa e enganadora de que tudo estava sendo feito para promover o crescimento econômico, o emprego e o bem-estar social. O livro é muito mais do que isto: as paisagens exóticas ou urbanas, as estórias de vidas heróicas ou corriqueiras, as batalhas travadas com armas ou as difíceis conquistas pessoais; a nada disso me refiro aqui. Também não falo da construção dessa obra-prima: o planejamento detalhado, a criação do enredo e dos personagens, as descrições precisas e até as reflexões iluminadas.
Concluindo, vejo-me em dificuldades para transmitir-lhes todas as qualidades e belezas que Érico Veríssimo criou nesses dois livros, de leitura fácil, agradável e envolvente do princípio ao fim. Isso porque , referir-me ao grande artista da literatura que foi Érico Veríssimo, meu patrono, é como elogiar as qualidades de um grande amigo... suspeita-se... Nesse caso o melhor a fazer é sugerir que venham conhecê-lo.
Obrigado.
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