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Não sou propriamente um beletrista, embora encontre grande prazer intelectual em ler bons livros, em apreciar o que escrevem os melhores autores. A língua portuguesa, para mim, é, antes de tudo, um instrumento de trabalho profissional sem o qual eu não conseguiria exercer a contento minhas atividades de professor e pesquisador na área da Agronomia. Quem exerce tais atividades com entusiasmo e paixão - como é o meu caso - tem, compulsoriamente, que redigir relatórics, pareceres, projetos, resumos para congressos, artigos técnico-científicos, notas de aula, livros, boletins e outros escritos. Ou seja, muitas vezes um profissional da área técnica escreve tanto, ou mais, quanto um escritor.
Convém, entretanto, lembrar que os escritos técnico-científicos seguem uma norma própria de redação, que os distanciam do prazer de ordem estética proporcionado pelas belas-letras. Principalmente os artigos científicos, o veiculo primordial para o pesquisador divulgar ao mundo técnico-científico suas descobertas e inovações, são documentos frios e eficientes, desprovidos de qualquer revestimento artístico-literário. Realmente, a regra para tais documentos é: escreva de forma simples, direta e com economia vocabular. Os que consu am a i era a ecnico-ciente ica sao pessoas ocupa as, obrigadas a manusear anualmente dezenas, por vezes centenas, de artigos científicos, e que não teriam paciência, e mesmo tempo, para ler artigos longos ou redigidos em linguagem rebuscada ou metafórica ou, ainda, escritos de forma imprecisa e sem uma ordem lógica. Daí as regras antes anunciadas.
Merece menção a extrema influência que, a partir do século XX, o inglês passou a ter sobre a literatura técnico-científica escrita em português. Em algumas áreas, como Informática e Biologia Molecular, é praticamente impossível redigir no vernáculo sem ver o texto invadido por inúmeras e insubstituíveis palavras e locuções inglesas. Muitos cientistas e técnicos brasileiros lêem mais em inglês do que em português ou outro idioma. Não admira, pois, que ao redigir em português eles demonstrem claramente essa influência, abusando de anglicismos ou mesmo dando às frases uma construção que faz lembrar o inglês. Essa invasão de termos ingleses já transbordou das revistas e livros científicos para as revistas populares e jornais e, sem dúvida, impregnará, no futuro, a nossa produção artístico-literária. Nada disso deve assustar os puristas da língua. Quando eu era criança, futebol escrevia-se com dois os, zagueiro era back e goleiro, goalkeeper. Hoje, todos os termos futebolísticos foram aportuguesados e, sem dúvida, o mesmo acontecerá com os vocábulos e as expressões cientificas, enriquecendo o idioma. É uma questão de tempo. Lembremos-nos que o inglês, hoje a principal língua das ciências, da tecnologia, do comércio internacional e da diplomacia, foi construído pela incorporação de palavras de muitos outros idiomas, inclusive dos de origem latina.
Escrever não constitui para mim atividade eventual. Exerço-a desde o início de minha carreira de engenheiro-agrônomo. Mas, ultimamente, com a experiência profissional adquirida em quase meio século, tal atividade intensificou-se. Também senti-me na obrigação de colocar no papel, na forma de livros, os conhecimentos e as experiências técnico-científicas que fui acumulando. Não quero que morram comigo. É desnecessário dizer que todo esse labor de escrita restringiu-se aos campos técnico-científico e didático, sem nenhuma veleidade literária.
Em 1995, entretanto, tornei a decisão de escrever as minhas memórias como aluno e ex-aluno da ESAV, hoje a nossa pujante Universidade Federal de Viçosa. Ao fazê-la, não fui motivado por nenhuma inspiração narcísea de discorrer sobre a minha própria pessoa, apenas usei-a para explicar e descrever uma instituição modelar que, pouco a pouco, vem perdendo características que a tornaram tão singular e que lhe renderam justa e desvanecedora reputação, tanto no Brasil como alhures. Talvez presunçosamente e por ter sido aluno e depois professor e administrador, num intervalo superior a 50 anos, julguei-me credenciado para mostrar às novas gerações que atravessam as Quatro Pilastras o que era a ESAV, como surgiu, sua filosofia de trabalho e como uma instituição pequena, pobre e isolada atingiu as alturas de excelência que desfruta hoje. Nessa transformação, todavia, houve ganhos e perdas, aqueles em muito maior número, mas as perdas poderiam ter sido evitadas, o espírito esaviano poderia ter sido preservado. Foi por isso que escrevi O Feijão e Eu, o título das memórias, nas quais me coloco como figura central que viveu e presenciou toda a transformação da ESAV rumo à UFV, passando pela UREMG. Ao escrevê-la, procurei livrar-me da armadura das três regras de redação de trabalhos técnico-científicos: escrever de forma simples, escrever de forma direta e escrever com economia vocabular. Pela primeira vez (não contando os exercícios de redação no curso secundário) vi-me livre para manejar meu intelecto e as palavras, sem regras rígidas. Foi como soltar um pássaro da gaiola. Mas, costumes arraigados não são fáceis de abandonar e, confesso, as três regrinhas muitas vezes interferiram na elaboração das memórias.
Ao alinhar este talvez longo intróito, tive em mente explicitar, com toda sinceridade, o porquê de minha surpresa ao ser convidado a ingressar na Academia de Letras de Viçosa, aliás uma agradabilissima surpresa. Creio tratar-se de um ato de gentileza, generosidade e complacência de seus ilustres membros. Conforme anunciei no início desta oração, não sou beletrista, mas aprecio as belas-letras e tenho prazer em usar o português em meus escritos. De qualquer sorte, confesso que o convite trouxe-me momentos de enlevo. A profissão de engenheiro - e aí incluo o engenheiro- agrônomo - significa, acima de tudo, familiarizar-se com o manejo de materiais, como máquinas, motores, ferramentas, instrumentos, cimento, terra, produtos industriais etc., enfim com os bens materiais que alavancam o progresso de qualquer nação.
Mas, raciocinam alguns, por esse mesmo motivo, os engenheiros não teriam, em geral, inclinação para as atividades artísticas, como a literatura. Os advogados, mais afeitos ao uso da língua e das palavras, estariam numa situação aposta. Essa avaliação dos engenheiros é preconceituosa. Para prová-lo, escolhi como patrono um engenheiro civil: Euclides da Cunha. |