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"Mas por que Badia Abrão El Hadj foi aceita, por unanimidade, nesta Casa, patrocinada por Arduíno Bolivar, poeta, prosador, educador e militante político, que tem na presidência de honra o contista Murilo Rubião, autor do internacionalíssimo O Convidado e na sua presidência efetiva a escritora Maria Aparecida da Silva Simões, incansável e corajosa defensora das letras, a quem nós, membros desta academia, muito devemos aos seus trabalhos executivo e intelectual íntegros, sérios, constantes, perfeitos, imparciais, inatacáveis e talentosos?"
A formação esmerada de Badia, tão somente, credenciaria a sua aceitação. Mas a sua vida profissional também é uma eterna busca de cultura. São empreendimentos sucessivos que se realizam um atrás dos outros. Sempre com vistas firmes no saber universal, quer como professora de ensino superior na Faculdade de Ciências Contábeis e Administração de Visconde do Rio Branco, onde lecionou Língua Portuguesa, quer como membro fundador da Aliança Francesa e da Associação Cultural e Educacional de Viçosa, quer como professora de literatura brasileira, ela não se desvinculou do Rio de Janeiro. Lá, bem no centro de Ipanema, a sinceridade, a universalidade de sua grande amiga de tantos anos, Clírian Alquéres, dividida com todos de maneira generosa, solidária e fraterna, é o elo propulsor desses vínculos. Entre eles, a possibilidade freqüente de ir ao domingones, a reunião aos domingos dos irmãos Aila e Alair de Oliveira Gomes, em que foram e, ou, são vistas figuras de expressão em nossa cultura, como Alceu de Amoroso Lima, Gustavo Corção, Rachel de Queiroz, Marcos Konder Reis, Henrique Mesquita, Embaixador Paulo Costa Franco, Athos Bulcão, Maria Helena Cardoso e Ricardo Cardoso, Olímpio Araújo, entre outros.
Segundo testemunho da própria Badia, Clírian Alquéres sempre funcionou como elo entre ela e a intelectualidade do Rio de Janeiro. Um elo tão intenso, tão forte, que lhe proporcionou a amizade seletiva de Carlos Drummond de Andrade, para quem muitos eram os eleitos e poucos os escolhidos e de quem Badia, com exclusividade, recebeu este poema de agradecimento: Absolvido e roupido,/ Por obra e graça/ de vossa mercê,/ o velho poeta/ agradecido.
Badia nasceu em Cajuri, MG, onde cursou o primário, e foi registrada em Coimbra, MG. Por volta da década de 50, então recém-saída da Escola Normal N.S. do Carmo, em Viçosa, ao invés de optar pelo casamento, como convinha as suas contemporâneas, decide-se pelo curso universitário.
Visando a horizontes culturais mais amplos, buscando um modo diferente de encarar a vida, sem preconceitos desumanos, sem idéias preconcebidas, rudimentares, restritas, individualistas, portanto narcísicas, mas movida por um código de referência, estritamente ético e cristão, respaldou-se no abono imediato de seus pais Abrão Daibes e Adélia Salim Daibes (sobrinha de Rachid Baicher, o intelectual autor do Hino Nacional do Líbano). Assim, dirigiu-se para o Rio de Janeiro, com vistas bem mais firmes em seu ingresso no curso de letras neolatinas (licenciatura em Português, Latim, Francês, Espanhol, Italiano e literaturas correspondentes) da Pontifícia Universidade Católica, PUC.
Badia expressivamente ingressou na PUC, com um honroso 2º lugar na prova de língua latina. Ato heróico admirável para uma normalista do interior de Minas Gerais que concorria, entre outras jovens de requintado preparo cultural, a uma vaga numa Universidade de nomeada, sob a orientação dos seculares, rígidos, disciplinados e meritórios jesuítas que, então, se orientavam com o reitorado do Padre Augusto Magno. Na PUC, Badia privilegiou-se com o desempenho profissional de vários mestres célebres, entre eles o poeta e catedrático Tasso da Silveira. Ao lado de Badia, como colegas de curso, realçam a poetisa Marly de Oliveira, que se tornou Sra. Embaixatriz João Cabral de Mello Neto, e Ruth Maria Chaves de Oliveira, aluna de talento excepcional, amiga de Manuel Bandeira, patrono da cadeira de Badia.
Badia projeta sua condição de ser humano no empreendimento, na dedicação à família e aos amigos, na fidelidade às suas crenças e, acima de tudo, na generosidade, também na ânsia de saber. Saber mais, saber sempre mais, saber muito mais. Assim, paralelamente aos seus estudos de Letras, inicia o curso de Direito, não concluído, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tendo como professores, entre outros, Pedro Calmon e Aliomar Baleeiro.
O curso de Letras não foi desprezado, estendendo-se para fora dos limites da Universidade. Badia cursou a Aliança Francesa e teve a possibilidade de visitar a França, como bolsista, mas não a desfrutou, e iniciou a Cultura Inglesa. Exigente consigo mesma, a nível de cultura, aprofundou seus estudos de língua e literatura francesa com a mestra Blanche Jacobina. Teve também como professora de língua e literatura espanhola Emília Navarro Morales, que lhe indicou, para aprofundamento, Climeres Alqueres. A partir daí, a vida de Badia se retroalimentou. Era o passaporte que lhe faltava para o grand-monde cultural brasileiro. Clirian tornou-se sua irmã nos momentos decisivos, zelosa e carinhosamente protegia-lhe os passos, abria-lhe os caminhos. Cursos exclusivos lhes são ministrados sobre a obra de Cecília Meireles e a de Cruz e Sousa, respectivamente pelas professoras Dra. Adolphina Portela Bonopace e Dra. Aíla de Oliveira Gomes.
Na década de 60, aconteceu o casamento de Badia com Ahmed Jamil Abdul Harim El Hadj. El hadj, traduzido para o português, mais que um sobrenome é um título honorífico e sacralizado. Indica aquele que visitou Meca. Em Viçosa, ele é conhecido como Armando, imigrante, com idéias firmes e amplas sobre a existência humana que permitem, democraticamente, a Badia a sua participação na vida cultural.
Quatro filhos, todos médicos, lhes advêm do casamento: Jamil Antônio Abrão El Hadj, Luzia Abrão El Hadj, que lhes deu os netos Pedro e Matheus, José Abrão El Hadj e Sebastião Abrão El Hadj. |