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Carta ao Sr. Cônsul-Geral de Portugal em Minas Gerais

Publicado por José Levy de Oliveira [jlevy] em 26/10/2007 (843 leituras)

Viçosa de Santa Rita do Turvo, 30 de maio de 2005.
(como homenagem, permito-me o topônimo arcaico)



Ao
Exmo. Sr. Cônsul-Geral de Portugal em Minas Gerais
Dr. Frederico Manuel Pinheiro da Silva.


Exmo. Sr.,



O motivo desta é exaltar e agradecer a presença de Vossa Excelência e do Excelentíssimo Sr. Vice-Cônsul, Dr. Otacílio Ferreira Cristo, à nossa região, com destaque especial à importante visita a Coimbra e à vossa palestra em Viçosa.

Permito-me repetir que a nossa Coimbra é atualmente o único Município do Brasil a poder orgulhar-se do nome, orgulho esse estribado em documentos e, em que pese não poder a historiografia científica respaldá-la, por deficiências dessa própria historiografia, em tradição transmitida, conservada, da presença, em sua origem, do Sr. Manuel (de Coimbra), motivo de escolha do nome. Neste ponto, o livro de Maria Aparecida da Silva Simões, resultado de exaustiva pesquisa nas fontes disponíveis e lembranças mais antigas do Município, é definitivo. Os que acreditamos na honestidade radical das pessoas antigas que depuseram damos, só por isso, a devida desculpa ao ceticismo historiográfico-científico.

Vossa Excelência recebeu, do nosso povo humilde de Coimbra, demonstrações espontâneas de afeto e de amor profundo, a um, até então, estranho, que chegava recomendado pelo alto título correspondente a alto papel, qual seja o de aproximar povos, o de reavivar seus valores em comum.

Vossa Excelência deixou, também, agradáveis lembranças, de embaixador perfeito da boa vontade, de personalidade participativa e afável, de demonstrações de aristocrática cultura que, esteja certo, o povo não esquecerá.

Porque o povo humilde, Sr. Cônsul, por paradoxal que pareça, é “aristocrático”, ao saber reconhecer as intenções puras e as exações perfeitas e ao sentir os valores maiores. Não por outra razão canta, com devoção, erros à parte, nosso extenso Hino Nacional e porta com orgulho, nas ocasiões de grandes emoções, nosso complicado - em simbologias astronômicas, históricas, telúricas e heráldicas - Pendão nacional. Na vossa presença, via perfeitamente, como nós víamos, a lembrança da História, o fio continuador da relação fraterna. Na vossa pessoa, um representante sincero e uma lembrança dos valores deixados pelos fundadores.

Vossa palestra em Viçosa foi, para muitos, informações de primeira mão, dessa História em nosso País tão mal cuidada ultimamente, e pela lúcida afirmativa da imbricação completa entre lusitanidade e brasilidade.

No açodo da consolidação da Independência, jovem País às voltas com seus problemas de auto-afirmação, muitos intelectuais puseram suas forças ao desserviço dessa honesta e justa identificação. Ultimamente, um pensamento que julga seu mérito pelo constante desprestígio das elites – conceito em que confunde todas as essências do que é e do que não é – parte da ruptura ideológica radical com as origens, e deforma gerações com o desconhecimento sistemático da verdade dos fatos.

Permito-me lembrar que o Brasil de hoje, em todos os seus aspectos, a começar do territorial, deve-se a Portugal (talvez não a este ou àquele reinado, mas ao Portugal profundo, ao seu povo), sendo de admirar que um país com tão poucos recursos demográficos pudesse empreender obras de tal vulto, tal valor estratégico e de tal visão do futuro, como são - para lembrá-lo apenas no Brasil -, os Fortes de Fronteira, entre os quais, em Corumbá, Mato Grosso, o hoje chamado “de Coimbra” (antigo Nova Coimbra) e, ao Norte, os do Príncipe da Beira, Tabatinga, São Gabriel, Marabitanas, São Joaquim e Macapá, todos num arco demarcatório do domínio efetivo da Metrópole e argumentos inarredáveis nas futuras disputas de limites. Além dos Fortes militares, as inúmeras cidades construídas selva adentro, em pedras trazidas de Portugal (a selva delas carecia), atestados insofismáveis do abnegado espírito construtor e colonizador (no sentido positivo), muito mais que de pilhagem, como se acusa simplistamente.

Estendo-me sobre fatos por demais sabidos de Vossa Excelência - e sobejamente relembrados no correr de vossa visita -, apenas para reforçar a percepção de que o Brasil, por sua magnitude populacional majoritariamente descendente da antiga Metrópole, pelo que lhe deve em infra-estrutura física, para não falar também moral e étnica, não se desdoura de ser “um imenso Portugal”.

Ora, “vox populi, vox Dei”, cada um daqueles meninos e meninas que pressurosamente abraçou Vossa Excelência, cada um daqueles adultos que pediu fotografar-se ao vosso lado, de certo percebia essa verdade, conheça (e reconheça), ou não, a poética saudação do nosso falecido Davi Nasser, que cantava o “Portugal, nosso Avôzinho”.

Vossa Excelência está de partida para outros rincões onde, sem dúvida, achará idênticos monumentos rememorativos da saga portuguesa, que se derramou por cinco continentes em obra civilizatória. Qual obra? A única que engrandece: a de deixar nos outros povos a marca da doçura da raça. Vossa Excelência viu a herança dessa obra na doçura com que foi recebido.

Mas deixa conosco, Sr. Cônsul, sempiternas lembranças de um nobre cavalheiro que nos trouxe mensagens de boa-vontade, de convivência , de cultura autêntica, aquela que discorre (e, ao discorrer, concorre) para reafirmar as verdade essenciais e perenes.

Possa o povo irmão que vai recebê-lo ser de já tocado, por essa indefinível comunicação que contamina o mundo mental por todo o planeta, intuindo, por esse meio, a nossa gratidão e repetindo as manifestações de merecido afeto e de gáudio por vossa presença.

Estou certo de representar todos quantos tiveram o imenso prazer gozar do vosso convívio e o do Excelentíssimo Sr. Vice-Cônsul.

Com cordiais e atenciosas saudações, sempre a vosso dispor nestas Minas Gerais,






Eng. Agr. José Levy de Oliveira
Membro da Academia de Letras de Viçosa
Rua Paulo Mário Del Giúdice, 12 - Belvedere
36570-000 Viçosa, MG
Tel: (31) 3891-3190; 9965-2024.


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