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O Jardim das Delícias

Publicado por José Levy de Oliveira [jlevy] em 28/5/2007 (394 leituras)

O JARDIM DAS DELÍCIAS

A fantástica história que adiante se conta resulta de um trabalho de arqueologia literária (um pouco de colagem), pois baseou-se em fragmentos desconexos e não datados, pertencentes ao que restou da obra de, aparentemente, Turbilius Lucidus.

Alguns desses fragmentos são citados em livro do eminente escritor Tacitus Splicitus, intitulado Romae Cotidianum, no capítulo “Anotações encontradas em fragmentos da obra de um devasso”. Essa obra - duas carroças de pergaminhos - foi perdida.

A pouca certeza que temos de ter-lhe dado a seqüência correta deriva de seu cotejo com outras fontes. Uma delas é o diário pessoal do médico Lepidus Pomposus. Parece que esse sensível facultativo teve oportunidade de socorrer pessoas envolvidas nos acontecimentos narrados por Turbilius ou, pelo menos, muito parecidos. Ou, então, nada disso, pois os textos dos fragmentos são assaz genéricos e, assim, confirmam, ou não, qualquer coisa.

Desse modo restam-nos, como fio condutor, mais ou menos definido, somente as palavras do próprio Turbilius:

“ - MEU NOME é Turbilius Lucidus e estou certo de que meu fim não tarda e, sobrevindo a minha morte, devê-la-ei tão somente à mania de ir tomar vinho de Chipre no boteco do gaulês Couveflorex, na Rua Augusta. NÃO FOSSE esse prazeroso hábito, adquirido pelo costume de toda tarde abandonar por dez minutos minha tenda de ferreiro, onde bato o ferro de muitas espadas romanas que vão levar paz ao mundo, não teria conhecido Quartus Quintus que, de resto, ao esbarrar comigo já tinha seus dias (dias? Horas!) contados. A VERDADE é que assim tinha que ser, se os deuses o querem.”

Deduz-se, do que se segue, que Turbilius estava no seu terceiro copo quando um homem de uns trinta anos aproximou-se dele. Tinha a calva respeitável de um romano de meia idade, a túnica simples de cidadão mediano, ar doentio, e ofegava. Encarou-o fixamente – é Turbilius quem conta – e perguntou:

“ É você o ferreiro Turbilius Lucidus?”

“Limitei-me a olhar para ele” – diz o autor – “sem responder. O único homem com careca de ferreiro, cara suja de ferreiro, macacão (sic) de ferreiro e músculos de ferreiro, naquele metro quadrado de Roma, era eu”.

Um grafólogo amigo meu chegou a apontar, na letra de Turbilius, um ou dois sinais de profundo arrependimento pela circunstância. Outro amigo, historiador, duvidou da autenticidade do texto, pela presença das palavras boteco, macacão. Imperturbável, Turbilius prosseguiu, dois mil anos antes dos doutos reparos:

“Quando ia dizer-lhe que eu era o Imperador (os deuses o tenham ... em óleo fervente!), ele continuou, apanhando-me o braço:

“-Acompanhe-me, por favor, a um reservado. Tenho para dar-lhe um serviço que muito o recompensará. Sou o geômetra e mecânico Quartus Quintus.”

Em meio ao tumulto cotidiano de uma das ruas mais movimentadas de Roma, o apelo feito, na voz presumivelmente fraca (pelas condições físicas que dele se descreve) de Quartus Quintus não seria suficiente para forçar Turbilius Lucidus a segui-lo. Mas um indício do caráter algo doce do ferreiro – certamente não abrandado tão só pelos acontecimentos em que se viu envolvido – é o trecho seguinte:

“SE HOJE escrevo, com mão trêmula de fraqueza, é porque preciso aliviar a consciência. Anda agora por Roma uma seita nova, pregadores de uma religião estranha, com o esquisito costume de se confessarem e penitenciarem. Sempre me ri deles, mas agora compreendo que há coisas que um homem não suporta dentro de si, sozinho.”

Turbilius pediu ao garçom que o chamasse ao fim de um quarto de clepsidra escorrida. Uma prova do seu estado de espírito disponível e pouco impressionado é que, ao acompanhar o andar trêmulo e o estado de nervos deplorável de Quartus Quintus, ponderou que ele estaria, decerto, reduzido a Terçus Sextus, se o nome de uma pessoa tinha a ver com o seu aspecto.

O reservado era um cubículo infecto, pois Couveflorex não tomava banho nem lavava a casa, embora o seu vinho fosse excelente. Sentados frente a frente, apenas perturbados pelo leve rumor que chegava pela janela cerrada, dispôs-se a ouvir o que seu combalido interlocutor tinha a dizer:

“ – ANTES DE mais nada” – disse ele – “ preciso da absoluta certeza de seu sigilo. Seu silêncio será muito bem recompensado.”

Antes que Turbilius ficasse alegre, embora até então nada lhe tivesse ao menos sugerido o valor monetário desse silêncio, o outro completou:

“ – O CONTRÁRIO será cobrado sangrentamente.”

“ – VOCÊ NÃO parece em condições de cumprir nenhuma ameaça” – rebateu Turbilius.

“ – Dê uma olhada pela janela. Verá três nubianos da minha escolta, gladiadores, que sabem desse nosso encontro e tudo sobre você.”

“Dispensei-me de olhar” – escreve judiciosamente Turbilius – “e ele prosseguiu”:

“ – NÃO ESTOU, porém, em condições de falar em excesso. Peço-lhe que não me interrompa. Você sabe que nossa Roma é conhecida por seus desregramentos. Isso é normal, num país dominador, muito rico e cosmopolita e com uma massa plebéia enorme a controlar. Mesmo entre os patrícios reinam certas liberalidades. De qualquer modo, a posteridade, principalmente influenciada por esses malucos cristãos – se, como temo, César e os leões não derem conta deles – a posteridade será muito injusta conosco. Porque o verdadeiro caráter de Roma é austero, varonil, amante do heroísmo, da beleza e da frugalidade. Reina entre a maior parte dos nossos cidadãos um ideal de decência e um orgulho do papel civilizatório do nosso Império, embora a decadência geral que nos trouxe o contato com os bárbaros. Pois, em vista disso, o que fiz não será aprovado e posso ser levado ao tribunal, se não conseguir desfazê-lo depressa e salvar as pessoas que ainda estão envolvidas. Para isso preciso de você.”

Quartus Quintus fez uma pausa, ofegante, após falar de um jorro. A respeito de todo o tumulto de impressões, Turbilius escreve:

“ – NAQUELA ÉPOCA eu, simples ferreiro, não dispunha de agudezas intelectuais suficientes para perceber se a confissão lhe desanuviara gradualmente o semblante. Lembro-me, hoje, de sinais indicativos no seu rosto. A face estava menos rígida e a voz mais calma.”

Turbilius chegou mesmo a considerar, com seu pendor para a mofa, que “seu aspecto evoluíra para Quartus Sextus”. E o fragmento termina dizendo que:

“ EMBORA DEPOIS dessa conversa e do meu assentimento em atendê-lo, eu tenha tido pouca tranqüilidade e mais nenhum condição de convivência normal com meus concidadãos, tive lucidez suficiente para chegar á conclusão de que pelo menos numa coisa esses loucos da seita nova estão certos: confessar alivia. E embora meu crime seja tal que meu alívio deverá tardar muito, e talvez dependa do julgamento que a posteridade longínqua me proporcione, é o fato de ainda ter forças para gravar esta confissão que me tem permitido um pouco de autocontrole e de paz.”

E qual teria sido o crime que tanto abalou os dois personagens e que parece ter sido grave, a ponto de ter sumido das crônicas latinas e o que resta de suas notícias serem cacos, dispersos e tão duvidosos? Por coincidência, o escrupuloso escriba que busca consolidar essas reminiscências, acabou lendo os desconexos fragmentos na ordem mais ou menos correta, pois a pavorosa revelação veio curta e grossa, num palmo de pergaminho amarelecido e roto:

“QUARTUS QUINTUS (no tempo em que ainda tinha vitalidade para merecer o nome) decidira pôr suas habilidades de mecânico a serviço de um grupo de amigos ávidos por aventuras sensuais, criando-lhes uma máquina extraordinária em que lhes bastasse reclinarem-se para serem atados, alimentados, limpados, abeberados de afrodisíacos poderosos e instantâneos, e movimentados pelo ar nas mais inimagináveis posições corporais, homens e mulheres, numa seqüência automática e constantemente repetida.”

Considerando o quarto de correr de clepsidra já muito demorado, Turbilius começou a levantar-se para ir-se embora, murmurando que não tinha tempo para desvarios. Quartus Quintus, porém, com ameaçadora suavidade na voz, retrucou-lhe:

“ – Você não tem saída. Terei de ser claro, agora. Os nubianos estão às portas do reservado. O garçom está sob controle. O seu serviço e a recompensa ou a morte! Compreenda o meu desespero. Jovens filhos e filhas dos meus melhores amigos resolveram experimentar a máquina e eu também entrei nela com minha amante. Ia tudo muito bem, mas o mecanismo é tão complexo e tem tantas sutilezas que perdemos seu controle. Está funcionando sozinha. E há cinco dias que estão todos sendo alimentados, limpados ,abeberados com o afrodisíaco e movimentados pelo ar, queiram ou não.”

“ – Mas é só recusar-se a comer, ora” – emendou-lhe Turbilius.

“ – É o que você pensa. A comida cai, se se fecha a boca, e o mecanismo limpa tudo. Mas o afrodisíaco é tal que, se você não engole, faz o mesmo efeito, entrando pela pele. É desesperador. Consegui escapar há dois dias e até hoje já fui expulso de três lupanares, e minha fortuna não dá mais para tal despesa.”

Era uma história maluca e sem pé nem cabeça. A seu favor, unicamente, o estado desesperado de Quartus Quintus, seu profundo abatimento e sua suplica:

“ – Preciso que me ajude a desligar a máquina. Se é que meus amigos ainda estão vivos”.

* * *

Como indicamos, o livro de Turbilus Lucidus importava em duas carroças de pergaminhos. Mais do que contra sua autenticidade pesam alguns fatos, porém, contra sua existência. Pimeiro, Turbilius era um ferreiro, dificilmente um escritor (embora o estilo dos fragmentos não indique nenhum Cícero). Segundo, impossível que uma máquina tão avançada não tenha deixado vestígios arqueológicos.

Entretanto, há fatos que pesam a favor da autenticidade do relato. Os estilos e grafias dos fragmentos são tão variados que muitos penitentes arrependidos podem ter escrito junto com Turbilius ou em seu nome. Um desses fragmentos, o mais desconexo e, sem dúvida, o mais suspeito, deixa claro que ele conseguiu desligar a máquina e libertar sessenta cavalheiros, matronas e jovens. Que alguns estavam à beira da morte, na ocasião, o que valeu imediata crucificação ignominiosa para Quartus Quintus.

Outro, quase ilegível, e de letra muito trêmula, revela que Turbilius foi muito bem pago para desmontar o terrível maquinismo. E acaba (mas não termina, porque, nitidamente, falta-lhe um pedaço) com uma revelação patética: quase ao fim de seu trabalho Turbilius apoderou-se do restante (cerca de meio frasco) do afrodisíaco. Por Júpiter!


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