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Felício Doido

Publicado por Cirene Ferreira Alves [cirene] em 27/4/2006 (499 leituras)

Ex-escravo ou ventre livre, a dúvida sempre existiu por conta de que não havia clima para conversa com Felício Doido.
Preto, alto, forte e doido. Doidice mansa. Felício falava sozinho e não bulia com ninguém. Não largava de um machado que para nós, por ele ser doido, era atemorizante; não largava dele. Plantava e colhia milho duma nesga de terra nos fundos de sua casa; para essa colheita Felício entendeu de erguer um paiol. Erguer não é bem o termo porque o paiol era pouco mais alto do que ele, de pau-a-pique, coberto de sapé, sem porta nem janela e torto. A colheita era despejada lá dentro do alto da coberta, numa abertura no sapé e era por ali também que ele entrava para tirar milho; para quê? Para tratar do porco que Felício entendeu de engordar num cercadinho feito nos fundos da casa. Para a família ele não dava uma espiga de milho que fosse. Que se danasse, era sua lógica. A mulher, Maria Antonia, magra, pelancuda, vivia com os braços recolhidos dentro da roupa pobre, enrolada, murcha, as dobras retorcidas de suas vestes mais pareciam pele enchendo chouriço, a coitada trabalhava na roça dos outros para ter o que comer, ela e mais dois filhos que não eram doidos, apenas tristes e calados.
O porco de que Felício tratava foi engordando, engordando, que até parou de andar. Felício, que era doido entendeu de não matar o porco; coitado do bichinho já nem levantava para chegar ao cocho: deitado, ele resfolegava o focinho por ali mesmo, lambendo folhas de milho. A pele esticada, fina, rachou; a banha começou escorrendo; as galinhas se deram conta do banquete ali de graça e deram de bicar; bicavam a banha, a rachadura foi crescendo, a freguesia aumentando, e era o espetáculo da época para a meninada: ver as galinhas comer o porco vivo do Felício Doido.
Felício nos valia muito: é que para almoçar ou jantar, ele, que não tinha recurso, e sim orgulho bastante para não mendigar, chegava com o seu inseparável machado e rachava lenha do nosso terreiro, pela manhã, até o almoço ficar pronto; claro que almoçava ali, pois trabalhara. Daí, sumia. Voltava pela tardinha e partia mais miúdo a lenha que rachará de manhã. Ai jantava. Assim vivia Felício: do seu trabalho, da sua doidice, sempre falando sozinho, sem fazer mal a ninguém.
Vez por outra cantava só para ele, umas coisas estranhas que não dava para entender bem:
"Tenho uma fia que vatuntajá
tenho uma sogra que me fais chorá
eu sozinho trabáio tanto
compro fiado sem podê pagá."
Felício Doido saiu de nossas vidas do jeito que entrou: sem explicação, sem conhecimento, sem conversa.
Mudou-se? Morreu? Sei lá.
Mas na lembrança ele está inteiro, vivinho e continua doido. Não largava de um machado que para nós, por ele ser doido, era atemorizante; não largava dele. Plantava e colhia milho duma nesga de terra nos fundos de sua casa; para essa colheita Felício entendeu de erguer um paiol. Erguer não é bem o termo porque o paiol era pouco mais alto do que ele, de pau-a-pique, coberto de sapé, sem porta nem janela e torto. A colheita era despejada lá dentro do alto da coberta, numa abertura no sapé e era por ali também que ele entrava para tirar milho; para quê? Para tratar do porco que Felício entendeu de engordar num cercadinho feito nos fundos da casa. Para a família ele não dava uma espiga de milho que fosse. Que se danasse, era sua lógica. A mulher, Maria Antonia, magra, pelancuda, vivia com os braços recolhidos dentro da roupa pobre, enrolada, murcha, as dobras retorcidas de suas vestes mais pareciam pele enchendo chouriço, a coitada trabalhava na roça dos outros para ter o que comer, ela e mais dois filhos que não eram doidos, apenas tristes e calados.

O porco de que Felício tratava foi engordando, engordando, que até parou de andar. Felício, que era doido entendeu de não matar o porco; coitado do bichinho já nem levantava para chegar ao cocho: deitado, ele resfolegava o focinho por ali mesmo, lambendo folhas de milho. A pele esticada, fina, rachou; a banha começou escorrendo; as galinhas se deram conta do banquete ali de graça e deram de bicar; bicavam a banha, a rachadura foi crescendo, a freguesia aumentando, e era o espetáculo da época para a meninada: ver as galinhas comer o porco vivo do Felício Doido.

Felício nos valia muito: é que para almoçar ou jantar, ele, que não tinha recurso, e sim orgulho bastante para não mendigar, chegava com o seu inseparável machado e rachava lenha do nosso terreiro, pela manhã, até o almoço ficar pronto; claro que almoçava ali, pois trabalhara. Daí, sumia. Voltava pela tardinha e partia mais miúdo a lenha que rachará de manhã. Ai jantava. Assim vivia Felício: do seu trabalho, da sua doidice, sempre falando sozinho, sem fazer mal a ninguém.

Vez por outra cantava só para ele, umas coisas estranhas que não dava para entender bem:

"Tenho uma fia que vatuntajá
tenho uma sogra que me fais chorá
eu sozinho trabáio tanto
compro fiado sem podê pagá."

Felício Doido saiu de nossas vidas do jeito que entrou: sem explicação, sem conhecimento, sem conversa.

Mudou-se? Morreu? Sei lá.

Mas na lembrança ele está inteiro, vivinho e continua doido.


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