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UM DIA CINZENTO

Publicado por Júlio de Castro Paixão [julio] em 02/11/2006 (638 leituras)

UM DIA CINZENTO

Aquela chuva fria fazia uma manhã muito cinzenta, e o professor Jaime Costa esqueceu-se de dar o beijo de despedida em sua esposa antes de sair para a Universidade onde lecionava Biologia. Desceu à garagem para pegar o carro, chateado por não poder ir a pé, como usava fazer em agradável passeio pelas alamedas floridas e perfumadas daquele campus de que ele tanto gostava, cumprimentando colegas, alunos e funcionários.

Dona Bernadete, a Senhora Costa, ficou muito chateada por aquilo e também porque fazia um dia muito feio. Assim, depois de arrumar seu quarto e tomar seu banho, quando seu filho Tiago, de dezessete anos, desceu para o café da manhã, ela foi bem grosseira com ele:

- Oh, não é possível que você vá usar essa camisa hoje novamente! Não vê que ela está suja? Parece um porco!

A camisa parecia limpa para Tiago e ele achou que a mãe havia exagerado, não precisava ter sido tão grosseira. Assim, por causa disso e porque o dia estava tão cinzento e frio, ele gritou com sua irmã Diana que descia correndo para tomar café:

- Só agora que você desce?! Eu não vou esperar para acompanhá-la à escola.

- Mas Tiago eu tomo café num segundo. Me espera, tenho medo de ir sozinha... – respondeu Diana.

- Se vire, sua dorminhoca!

Havia tempo suficiente para os dois chegarem à escola antes que o portão fechasse, e Diana achou que seu irmão não tinha razão de tratá-la daquela forma. Assim, por causa dos gritos de Tiago e porque o dia estava chuvoso e cinzento, quando ela, exageradamente agasalhada por ser muito friorenta, encontrou-se com Dora, sua melhor amiga, no pátio, disse em voz alta, na frente de todos:

- Nossa! O que você fez com seu cabelo? Parece uma vassoura!

Dora ficou muito envergonhada com suas colegas e não conseguiu entender porque Diana, sempre tão amável, fora tão mesquinha com ela. Assim, por causa daquela crítica e porque fazia um tempo cinzento e triste, ela não resistiu à tentação de, também, criticar Ana Maria, que estava vestida num casaco vermelho e verde:

- De onde você tirou esse casaco, do baú de sua avó? E que vermelho mais berrante, menina! O carnaval ainda não chegou.

Dos olhos de Ana Maria escorreram duas lágrimas por toda aquela humilhação. E, por causa daquilo e porque o dia estava cinzento e muito úmido, ela respondeu assim a Rafael, seu colega de sala, quando este, galantemente a chamou de gatinha, como sempre fazia para demonstrar carinho por ela:

- Gatinha, gatinha... nhenheném... Meu nome é Ana Maria!

Rafael ficou engasgado com o choque. Ainda quis retrucar, mas engoliu calado aquela grosseria. Durante toda a manhã cinzenta e chuvosa não conseguiu prestar atenção às aulas. E, por causa daquilo e porque a manhã era chuvosa e friorenta, quando Rodrigo perguntou se poderia ir à sua casa para que ele lhe ensinasse três teoremas de geometria, respondeu cheio de rancor:

- Não! Tenho aula de karatê. A prova é amanhã e você ainda não aprendeu aquela bobagem? Vai ser burro assim lá longe!

Rodrigo teve vontade de acertar-lhe um soco bem no nariz... mas, enfim, virou-lhe as costas sem dizer uma palavra sequer. E, por causa daquela decepção e porque a manhã continuava fria e cinzenta, quando ele chegou em casa e encontrou, como todos os dias, sua irmã Bel fazendo joguinhos em seu computador, foi logo mostrando a ela a porta do quarto e dizendo:

- Todos os dias mexendo aqui. Sai! Cai fora!
Bel recolheu-se a seu quarto chorando, com um grande aperto no coração. Estava chocada com os gritos do irmão mais velho por quem ela tinha verdadeira adoração. Assim, por causa daquilo e porque a chuva ainda fazia um dia tão cinzento, quando encontrou Yuri, seu irmãozinho de cinco anos, brincando com suas bonecas, ela disse:
- Por que tenho que ter um irmão mulherzinha que brinca com minhas bonecas?

Yuri sempre havia brincado com as bonecas da irmã e ela nunca havia se importado. Não conseguiu entender porque ela o chamara de mulherzinha e foi chorar na varanda onde estava He-man, o cão-labrador da família. E assim, por causa daquilo e porque a chuva insistia em fazer um dia tão cinzento e frio, trancando-o em casa durante toda aquela manhã, quando ele viu He-man deitado em seu balanço da varanda, deu-lhe uma chinelada, gritando:

- Saí daí, seu bobo. Isso não é lugar de cachorro!

Mas o cachorro não se importava com a chuva. Pensou que Yuri queria brincar e pulou sobre ele, derrubando-o no chão e lambendo seu rosto. Aquilo lhe fazia cócegas e Yuri caiu na gargalhada.

Ele ria tanto que fez com que Bel risse também quando ela foi pedir para que ele descesse à garagem com o cachorro, obrigação dela de sair com o animal àquela hora. Era um belo quadro aquele: seu irmãozinho rolando no chão com o cachorro, emoldurados pelo caramanchão de um verde tão intenso que cobria toda a grade da varanda, contrastando contra um céu cinzento que agora começava a mostrar umas nesgas de azul.

Ele a atendeu com um lindo sorriso. Ela, observando que a chuva havia passado mas que o céu ainda estava cinzento, sentiu-se muito agradecida e muito satisfeita, pois não queria perder um tão anunciado programa infantil na TV. Sorriu para ele de volta e disse:

- Obrigada meu amor. Desculpa, você não é mulherzinha, não, você é o meu cowboy.

Nos lábios de Bel ainda havia um resto de sorriso quando Rodrigo veio pedir-lhe emprestados seus lápis de cor. Se pensou em dizer não foi apenas por uns pouquíssimos segundos. Ela adorava aquele irmão, não podia negar:

- Estão na segunda gaveta de minha escrivaninha, pode usar à vontade

Rodrigo, encantado com a boa vontade da irmã, sentiu um calorzinho no coração, segurou-se para não abraçar e beijar a irmã de sorriso tão cativante, e falou com uma voz aveludada de tão mansa:

- Quando eu não estiver no quarto, você pode usar meu computador, viu?!

Mas Rodrigo não conseguia entender aqueles teoremas. Pôs o orgulho de lado e telefonou para Rafael:

- Rafa, eu sei que sou mesmo um burraldo mas, se você não me ensinar aqueles teoremas, eu vou fracassar na prova e meu pai não vai me perdoar... Se eu tomar bomba...

- Se você fosse burro não teria feito as melhores redações do semestre e não teria tirado dez em química duas vezes. Burro sou eu, cavalão, falando daquele jeito com meu melhor amigo. Vem aqui que eu te ensino.

Às duas e quinze daquela tarde o telefone tocou e foi Rafael quem atendeu :

- Ainda sou sua gatinha?

O coração dele quase parou. Era Ana Maria.

- Claro! – foi só o que ele conseguiu responder.

- Desculpa por essa manhã. Eu apenas estava muito nervosa e sei que aquilo não era razão pra engrossar com você. Está passando Romeu e Julieta, no Odeon, é uma oportunidade de você ver, já que queria tanto... que tal nós dois, hoje à noite?

Como Rafael aceitou o convite, Ana foi escolher um de seus mais bonitos vestidos para usar em sua companhia. Estava vestida nele para ver como lhe caía, quando a campainha da porta tocou. Era Dora. Vinha convidá-la para irem à maternidade conhecer seu priminho que havia nascido naquela manhã.

- OK, vou mudar de roupa - respondeu ainda com voz de surpresa.
- Para quê? Esse vestido seu é um encanto. Bem que eu gostaria de ter um assim – retrucou Dora.

Lá para as quatro e meia, o dia já não estava tão cinzento, o vento soprava as nuvens e o azul que se mostrava mais e mais era de uma pureza indescritível. Dora foi à aula de Educação Física onde se encontrou com Diana, com o semblante ainda meio abatido. Enquanto faziam ginástica, sob a orientação do professor Volpato, Diana lhe dirigiu a palavra bem baixinho, como costumavam fazer ali:

- Não fica chateada comigo, querida, eu sei que fui grossa hoje de manhã. Acho que senti foi inveja. Você pode usar qualquer penteado extravagante porque você é tão bonita e seu cabelo é demais...

Ao chegar em casa, Diana foi ouvir música na sala onde estava Tiago, deitado no sofá. Imediatamente ele se sentou, oferecendo lugar a ela:

- Senta aqui, maninha. Tenho um presente pra você, é ainda pelo aniversário quando eu estava liso, tá? É do Zeca Baleiro de quem você gosta tanto.
- Obrigada – respondeu Diana, quase chorando de emoção.

Dona Bernadete encontrou os dois num animado papo sobre MPB. Deu um beijo em cada um e disse a Tiago:

- Tem gente tão cheirosa por aqui... É assim que mamãe gosta que seus filhotes andem. Desculpa, filho por hoje de manhá, eu estava tão nervosa...

- O que foi que aconteceu? – Diana ainda quis saber.

- Nada, nada de importante - cortou Tiago com delicadeza.
Pelas seis horas, antes de terminar, o dia ainda se mostrou brilhante e um solzinho fraco e amarelado refletia cada gota de chuva no gramado, em pequenas poças e nas folhas dos arbustos do jardim dos Costa. Tudo parecia límpido e brilhante e os pequenos pássaros começavam a chilrear, agasalhando-se nas árvores. Havia no ar a promessa de uma noite límpida e cheia de estrelas.

Foi nessa hora que o professor Costa chegou à casa, deu um grande e afetuoso beijo em Dona Bernadete, e os dois ficaram ali abraçados, por alguns minutos, esperando para ver o pôr-do-sol, antes que ele subisse para tomar banho e jantar...


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