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SEUS PÉS

Publicado por Júlio de Castro Paixão [julio] em 02/11/2006 (1626 leituras)

SEUS PÉS

Foi como se ele tivesse ido dar uma volta no quarteirão. Quatro anos depois, quando, inadvertida, lhe abri a porta, ele limpou simbolicamente os pés no carpete de entrada e passou direto por mim para ir sentar-se em sua poltrona que continuava no mesmo lugar, embora toda a casa tivesse sido rearrumada e até as gravuras nas paredes já fossem outras para não trazerem lembranças tão cruéis.

Acendeu um cigarro e usou um vasinho de planta como cinzeiro.

O tempo passando com tantas imagens em minha cabeça, a dor de lado me voltando devagarinho, aquela musiquinha chata entrando pela janela, e ele, sem olhar pra mim, concentrava a vista no retrato de sua mãe que conservei sobre o console com um jarrinho de flor de seda, homenageando minha sogra, bondosa e sofrida mulher. O retrato não estava lá por causa dele, mas por mim mesma que adorava aquela criatura. Eu e ela tínhamos uma relação de cumplicidade, pois, desde o começo de nosso namoro, eu era freqüentemente advertida por ela contra o próprio filho. Teimei em casar-me com ele e ganhei, pelo menos, aquela aliada na miserável partida que o jogo da vida me reservara.

O tempo passando, a musiquinha me esquentando a cabeça e ele calado. E eu calada, olhando para a cara dele que parecia nem sentir minha presença. Depois, tirou os sapatos bem devagarinho, exibindo seus delicados pés brancos que ele sabia provocar minha libido. Esfregou-os com força, massageando-os por cima e por baixo, e eu, olhos fixos naquela perfeição de sua anatomia. Mas consegui me livrar da tentação e fui a meu quarto dar um importante telefonema. Depois, fui à janela da sala. Fiquei um tempão ali, olhando para baixo, aquelas terríveis cenas do passado correndo de trás pra frente por meu cérebro, céleres, sem cor, até o brusco stop sobre o rosto risonho de outro homem, Zé Pedro, num tempo em que os botões de meus seios ainda mal começavam a brotar.

Zé Pedro já era rapaz do colegial quando chegou com a família, pai gerente do Banco, transferido de Unaí. Era risonho e corado e brevemente já se fizera líder entre os rapazes do bairro porque jogava basquete como nenhum outro ousava sonhar. Eu vinha da escola quando o vi pela primeira vez, minha saia azul marinho tão encardida e os livros numa pasta muito grande, herdada de meu irmão Carlito e bastante estragada. Vazada por aquele olhar curioso, não sei se senti mais vergonha da saia, da pasta ou de meus peitinhos querendo furar a blusa sem a proteção de um sutiã que eu andava implorando a minha mãe. Quando ele se aproximou, abrindo a boca de dentes alvíssimos e tão bem enfileirados, eu senti um estremecimento seguido de uma leve tontura.

Então, para meu alívio, ele falou:
- Você é irmã do Cláudio?
- Sou...
- Diga a ele que o treino é às cinco, tá bom?

Em nossa casa ele aparecia todos os dias, desde então; conversava com o Cláudio de olho em mim, eu sempre tentando encobrir meu busto, cruzando os braços ou segurando algum objeto. Meu irmão era tão fanático por ele que, percebendo tudo, nem considerava minha tenra idade e fazia vista grossa. Parece que se sentia orgulhoso daquela tentativa de flerte pois um dia até comentou:
- Nossa, as meninas de Resplendor todas doidas com o Zé Pedro e ele anda fascinado pela Tê que nem moça é ainda.
Fiquei rubra e fui ajudar mamãe a lavar a louça, lembro-me como se fosse hoje.

Um dia ele me trouxe um cacho de uvas que a avó mandara de Unaí. Não havia uva em Resplendor naquela época, o que tornou o presente mais do que precioso. E Cláudio comentou, ao chegar do colégio:
- Aí, pirralha, ganhou um cacho de uvas, hem?! Guardou pelo menos uma pra mim?

Como ele ficou sabendo?, fiquei me indagando por bem uma semana. Até o dia da competição, do primeiro jogo dos rapazes de nosso bairro contra o time de um bairro vizinho. Fui assistir, curiosa para vê-lo de calção, já adivinhando as pernas grossas, musculosas, o peito largo, o bumbum arrebitado. Cheguei cedo com meu irmão que me levou no jeep de papai. Fiquei lá no grupo, no meio deles, ao pé da cesta, o sufocante cheiro de homem que me inebriava e repugnava ao mesmo tempo. E eles se davam conselhos, se xingavam, tiravam as calças, vestiam a feia camisa do time, calçavam os tênis e comiam chocolate. Zé Pedro, de olhos indisfarçadamente presos a mim, pediu-me que pusesse suas sandálias num saquinho enquanto calçava os tênis.

Foi aí que vi seus pés descalços: os artelhos magros, tortos como lombrigas, impudicamente abertos, as unhas encravadas, escuras, e aqueles enormes calos em cima de cada um... Senti náusea e nem assisti ao jogo. Voltei pra casa numa tristeza infinita, o estômago doendo... e na primeira esquina, encostei-me na parede e vomitei todo o chocolate que ele me havia dado.

Com a sensação de ter sido irremediavelmente traída, nunca mais olhei para ele, para a evidente decepção de meu irmão. E fiquei satisfeita quando soube que eles perderam o jogo... Vingança?

Aliviada com a parada da música, saio da janela e o vejo folheando nosso álbum de casamento. Ao me ver aproximar, diz com voz estudada:
- Você hoje ainda é mais bonita.

Tive vontade de esganá-lo; depois a vontade de matá-lo foi-se tornando mais intensa e cruel e eu pude sentir cada uma das estocadas que imaginava dar em seu ventre esguio com a faca da cozinha.
- Não se bebe nada nesta casa? - indagou com um pouquinho de humildade que se insinuava na umidade de seus olhos.
- Nesta casa não entra álcool - respondi com secura e com o orgulho de quem não tinha sido viciada por suas mãos.
- Mas quem falou em álcool? Um refresco ajudaria a aliviar o calor desta noite...

Servi-lhe suco de caju, uma jarra inteira, sem, no entanto, lhe fazer companhia. E ele bebia, saboreando o suco doce e gelado, e eu morrendo de vontade de tomar um copo, me censurando por não ter deixado um pouco na cozinha, porque daquela jarra eu não iria beber mesmo.
- Beba também.
- Obrigada, não tenho sede.

Guardei o álbum, coloquei-o na estante e peguei um outro, da minha família de origem, só para ter em que me ocupar enquanto aguardava o desfecho daquele incidente. Estaria ele voltando para casa? Estaria se escondendo no lugar menos provável de ser encontrado, contando para isso com meu assombrado ou covarde silêncio? Estaria apenas exercitando sua maldade, seu espírito malévolo me fazendo sofrer?

Eu corria os olhos pelas fotos: aqui meu pai em sua estréia como saxofonista da Banda Luz Tropical; aqui minha mãe recebendo seu anel de normalista; aqui meu tio Irineu, tão fino e sofisticado, ao lado de seu primeiro automóvel; meus avós acenando da sacada de sua varanda em Unaí; tia Dora de mitenes e chapéu assistindo a uma solenidade (tia Dora que olhava para mim e dizia: "Vejo uma sombra em seus olhos; sorria menina!"); eu Cláudio e Carlito com nosso cãozinho Chico... Cláudio uniformizado chegando do Canal de Suez... Cláudio e Carlito jogando bola na rua; Vovó Téia bordando na varanda... eu no ginásio com minha turma quase inteira e quase inteiramente feliz: Vanda, Socorrinho de Tata, Almir, a bela Florinda, a gorda Anabela, Conchita sempre a meu lado, agarrada comigo, Luiz Mendonça que herdou a farmácia do pai, Boizão, sempre às gargalhadas, que me pôs o apelido de Chuvisco, Hermano, a eterna franja de cabelo a lhe cair sobre os olhos... o turco Jamil Balut, pele alva e sobrancelhas grossas, me cobrindo com todo tipo de agrado, fazendo sentir-me uma rainha...

Um dia Jamil se declarou a mim num bilhete jogado através de minha janela. Não assinava mas eu conhecia bastante sua letra bem desenhada. Comecei então a corresponder ao seu flerte e, de vez em quando, também lhe fazia alguns agrados: um pedaço de cocada dos cocos de nosso quintal, um marcador de livros escrito saudades com letras góticas, a estampa do Rivelino, mais rara do que a de Pelé, coleção especial das balas Ases, encomendada a meu tio Irineu em uma de suas viagens a Belo Horizonte.

Numa tarde, após forte chuva, dessas que lavam a natureza, eu chegava em casa com as verduras encomendadas por minha mãe e Jamil estava me esperando na varanda. Olhou-me com aqueles bondosos olhos negros e amendoados e disse exatamente assim:
- Tão linda com esse cabelo molhado, dá vontade de beijar...

E aconteceu ali o meu primeiro beijo, as folhas de couve se amassando entre nossos peitos, o pé de jasmim trazendo outra chuva sobre nós quando ele me encostou em sua latada, o saco de legumes, molhado, se rasgando, cebolas e beterrabas rolando pela calçada.

Pus seu retratinho dentro de meu livro de orações. Rezava desejando sempre mais muitos de seus beijos, e pedia a Deus que me desse a graça de me casar com ele...

Até um dia em que o vi tirando ouro do nariz. Tirava e limpava no pé, aquele pé gordo, vermelho e brilhante que parecia inchado, parecendo que tinha erisipela... A ânsia , o vômito, a completa desilusão. O corte foi incisivo, sem outra explicação além daquela de que eu não o amava tanto assim. Naturalmente ele nunca entendeu.

Jamil Balut foi o único da turma que se formou; casou-se com Conchita, foi construir uma ponte na Bahia e por lá ficou. A cada ano, passam aqui pelo menos metade do mês de dezembro, quando me trazem castanha de caju, farinha de mandioca, geléia de cacau e carimã, ingrediente com que invariavelmente eu faço meu bolo de Natal.

Reconhecendo que Balut, em sua simplicidade e ternura, é um homem tão especial, e certa de que Conchita fala a verdade quando se diz uma mulher realizada, feliz, eu recolho duas pequenas lágrimas que teimam tolamente em me perturbar a visão e olho para os pés perfeitos deste homem que tanto já me fez sofrer, com suas mentiras, suas agressões físicas, sua hipocrisia, seus desmandos.

Ele aportou em minha vida exatamente exibindo seus pés. Eu estava na varanda de casa numa tarde de domingo, o sol abrasador, quando ele surgiu do nada, os pés descalços, o pequeno corte no esquerdo sangrando aos borbotões porque estava com o corpo quente.
- Caí da bicicleta e meu pé foi imprensado pelo pedal no paralelepípedo - comentou e eu lhe ofereci um curativo.

Aquele pé branco, forte e delicado ao mesmo tempo, os artelhos parecendo esculpidos por um Michelangelo, a sola fina, macia, o calcanhar torneado com perfeição... nem a mais leve sombra de qualquer calosidade... e o cheiro do sabonete de seu último banho ainda recendendo... meus músculos se afrouxaram, meu corpo amoleceu, o pé crescia a meus olhos, encolhia-se em seguida até se tornar minúsculo, agigantando-se novamente... o calor me sufocando, apertando a garganta... vontade de agarrá-lo e colocá-lo de encontro a meu seio, abraçá-lo, beijá-lo, lambê-lo, misericórdia Senhor!...

E ele percebeu a fraqueza, o desgoverno e disse-me então que eu era tão bonita e boazinha e que gostaria de ter uma enfermeira assim só para ele. E que “amanhã se você quiser eu corto o outro pé pra você fazer outro curativo”. E sorriu com alvos dentes, outra fraqueza minha. E eu disse que seu pé era muito bonito e ele disse que bonita era minha mão, uma mão abençoada. E a beijou duas, três, inúmeras vezes depois, e beijou meu rosto e lambeu meu queixo. E quando ia saindo, porque minha mãe estava me chamando para ajudá-la a fazer uma broa, ele disse que se chamava Washington, que se escrevia Vasíngton, com dábliu, esse, agá e gê, e pediu para eu guardar um pedaço de broa pra ele, e eu guardei e, à noite, pedi desculpa porque a broa não ficou muito bem feita, que a próxima seria melhor. E ele comeu a broa - um pedaço grande - de três bocadas apenas, o pé, lindo, fora do sapato, exibido, exibido, tentador...

E já no sexto encontro ele falou em casamento, alegando que era novo mas tinha como sustentar família montando um açougue de carne suína, pois seu pai criava porcos num sítio que eu já conhecia pelo cheiro terrível que se espalhava pela redondeza, como uma profecia maldita da qual a boba aqui nem suspeitava.

E o casamento foi maravilhoso por três anos e pouco, até quando ele começou a se engraçar por outra e mais outras mulheres, transformando-o de um dia pra outro num rosário de sofrimento para mim. E aí ele se amigou com a Abigail, a cobria de presentes e começou então a sustentá-la. E o dinheiro foi sumindo, o açougue dando pra trás com tanta despesa que a vagabunda fazia, o sítio da mãe - que já estava viúva - com cada dia menos criação. E eu tive que pedir a meu tio Irineu, que se elegeu deputado, pra me arranjar uma colocação num Grupo Escolar de um povoado aqui perto para equilibrar um pouco a nossa economia.

O ordinário me batendo sempre que eu me referia à outra, eu apanhando calada com medo de meus irmãos saberem e matarem o vagabundo. E a cada dia bebia mais e sempre querendo me forçar a beber com ele. Acho que foi por tanto sofrimento que apareceu aquele tumor no meu útero e não pude mais ter nenhum filho além de Dalva Lúcia, minha princesinha, minha bonequinha de lábios de rubi que o ordinário, o relapso, deixou se afogar no rio quando foi passear com ela e a vagabunda, fazendo de mim, definitivamente, esse trapo humano cheio de fraqueza e amargor.

Foi condenado por negligência, homicídio culposo, e fugiu daqui não deixando o menor vestígio. E hoje me volta como quem saiu pra fumar na praça, porque eu implico mesmo com o cheiro de cigarro. E nem por isso deixou de chegar fumando, envenenando minha plantinha com suas cinzas malditas. E eu estou esperando a droga que pus no suco dele fazer o máximo efeito e ele apagar num sono solto para eu poder beijar esses pés de estátua grega; beijá-los muito, muito, da maneira mais erótica que uns pés podem ser beijados; beijá-los de uma forma que nunca tive coragem de beijar antes, com a libido absolutamente solta, pornográfica mesmo, até chegar a hora que marquei com a polícia para vir buscá-lo.


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