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O Telefonema

Publicado por Marília Nacif Barbosa [marilia] em 12/1/2010 (295 leituras)

A separação havia acontecido quando ainda compartilhavam o mesmo teto. Foi tudo ruindo devagar,sem que os dois se dessem conta, do mesmo modo como a chuva miudinha vai se infiltrando nas encostas e ninguém percebe. Vem a avalanche e carrega tudo o que está na frente.
De repente, ele ocupava um quarto de pensão.
O tempo foi passando: lembranças ressentidas, questionamentos... Às vezes eles se viam, falavam de coisas que ficaram pendentes, cada um mostrando que nem um pouco se importava com aquela separação. Foi bom enquanto durou...
Tarde de domingo, o telefone toca. Desde a última vez em que se falaram, muitos dias se haviam passado.
“Podia bem ser ela, pensou”; o coração sobressaltado: “Quem sabe a saudade bateu, doeu mais forte a solidão, ela repensou, repensou....”
E era ela. A mesma voz, o jeito decidido de se comunicar, sempre parecendo ordenar, o que outrora tanto o incomodara, mas que, naquele momento, lhe parecera até agradável. Queria falar-lhe a sós. Assunto sério. Resultado de noites de insônia e exames de consciência.
“Agora sim”, pensou ele, “ela não havia suportado aquele silêncio, a distância, o vazio do leito, o colo onde deitava a cabeça para assistir televisão...”
Hora e local marcados, ele perguntou:
- Posso levar uma garrafa de vinho?
Ele ouvira seu sim e que ela iria fazer aqueles pastéis de que ele gostava tanto.
Não havia mais dúvidas. Tudo indicava o que para ele já era definitivo. E foi assim pensando que se preparou para o encontro. Usou até um pouco daquele perfume cujo rótulo estava tão gasto que nem se podia ver o nome. Mas ela o reconheceria imediatamente: Madeiras do Oriente. Quantas lembranças esta fragrância lhe evocaria!
Tudo pronto. Ah, o vinho! Não poderia esquecê-lo! Seria ele o catalisador daquela reação que, sem dúvida, iria se completar. E decidiu abri-lo com antecedência a fim de saborear uns goles e, com isto, relaxar-se um pouco e não parecer tão tenso quanto se sentia.
A caminho pôs-se a refletir sobre as mudanças ocorridas. Ele, com aquela fama toda de turrão, genioso, tipo falou-e-disse, apresentava-se ao primeiro chamado, esquecido até de haver dito que nunca mais pisaria naquela casa, nem que a vaca tossisse. Procurou explicar a si mesmo que, afinal de contas, não era caso de amor verdadeiro. O homem se acostuma com a rotina, era difícil na sua idade começar de novo, e a acomodação não era somente uma fraqueza sua.
Chegou. A casa onde juntos viveram tantos anos e ele nem havia percebido como era bonita, confortável, decorada com o gosto dela, que não era bem o seu, mas que, naquele momento, até lhe parecera apurado. Ela vestia traje caseiro, mas via-se que havia caprichado na maquiagem: o batom, aquele risquinho em volta dos olhos para acentuar-lhes a sedução...
Ele bem conhecia seus truques!
Mesa arrumada para dois, tudo no maior requinte. O assunto arrastou-se e, enquanto os pastéis assavam, os dois foram bebericando o vinho, comendo alguns aperitivos. E quando ela pediu licença para verificar o forno, vieram-lhe à lembrança os últimos acontecimentos. Condenou-se por se haver instalado em outro aposento da casa, após a última desavença, o que dificultara a reaproximação. Os dois brigavam sempre, tinham temperamentos difíceis, mas nada que um pouco de vinho, na quietude das horas, não apaziguasse. Era assim que os ânimos arrefeciam.
E tudo aconteceu quando ela voltou com a travessa de pastéis e ele acordou de suas divagações, nem esperando que os danados esfriassem. Serviu-se e foi logo dando uma bocada naquele mais moreninho, como preferia. Mas, qual! Com o vinho já lhe subindo à cabeça mais o calor do pastel a lhe sapecar a garganta, engasgou. Tossiu, tossiu e foi-se avermelhando, avermelhando... E mais engasgado e vermelho ficou ao ouvir a voz dela, comunicando-lhe de supetão:
- Olha, decidi pedir nosso desquite, quer você queira, quer não...


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